Editorial – Edição 19

Editorial Nº 19 – Educação e Cotidiano Escolar

Erinaldo Cavalcanti,
Geovanni Cabral
Ana Maria Dietrich

Toda escrita contém as marcas do tempo e do espaço em que é gestada. O ato de grafar em palavras as experiências humanas traz incrustadas as digitais do seu tempo; apresenta uma espécie de radiografia das disputas sociais, políticas e culturais tecidas no e pelo tempo. A escrita desse dossiê não foge à regra.

O dossiê do n° 19 da Revista Contemporâneos — Educação e cotidiano escolar — é gestado sob o solo de um campo de batalha. Nos tempos atuais, fazer pesquisa é, antes de tudo, uma posição política de enfrentamentos. Fazer pesquisa em ciências humanas é uma decisão de luta contra um conjunto de forças, de caráter fascista, que se mobilizam e se fortalecem com o propósito de amordaçar os pesquisadores(as)/professores(as) que atuam nesse espaço de enfrentamento.

O dossiê nasce, portanto, em um estado de guerra. Uma guerra não apenas no sentido metafórico, e não apenas “de narrativas”, como já bem assinalou Christian Laville (2010) ao analisar algumas dimensões ligadas ao ensino de História. Há muitos tipos de guerras e muitas formas de se guerrear.

Nos últimos anos, a educação no Brasil — como espaço de produção de conhecimento — tornou-se uma das trincheiras onde se digladiam inúmeros atores, incluindo soldados, generais e coronéis. Estes não aparecem aqui apenas como metáforas e, infelizmente, a educação também passou a ser por eles disputada como espaço de atuação.

A escola, como lócus de produção de saberes, espaço de socialização e de vivências humanas, virou palco dos mais diversos tipos de disputas. Disputas não apenas acadêmicas, teóricas ou epistemológicas. A escola tornou-se espaço de combate político. Tornou-se arena de disputas partidárias, ambientadas em um cenário de polarização. Diferentes atores — incluindo sujeitos sociais distintos daqueles que compõem a cultura escolar — passaram a se “autoautorizarem” competentes para interferir dentro do espaço da escola. São lideranças religiosas, militares e até mesmo representantes dos legislativos. Mas, essas interferências não ocorrem dentro da lei que determina o que compete à sociedade no que tange às suas relações como a escola. Pelo contrário.

Estamos em guerra contra inúmeros projetos políticos que desejam determinar, de forma autoritária, o que devemos ensinar em nossas escolas. Uma guerra movida por diferentes sujeitos que pretendem definir quais conteúdos devem compor o currículo da educação básica, como ficou demonstrado nos embates envolvendo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Lei nº 13.415/2017, conhecida como lei do Ensino Médio. Uma guerra travada para definir quais conteúdos devem ser ministrados em sala de aula e quais metodologias devem ser desenvolvidas no exercício da docência. Querem determinar quais livros devem ser usados e como se deve trabalhar com eles. Estamos em uma batalha contra forças retrógradas que querem evitar a construção e a circulação plural de narrativas sobre nossa experiência no tempo. O perigoso projeto político denominado Escola Sem Partido é representativo desse universo de tensões.

Querem determinar como devemos narrar o tempo; querem definir como devemos explicar as experiências de nossos antepassados. Querem dizer como nós professores e professoras devemos relatar as lutas de homens e mulheres que nos antecederam. Mas não nos enganemos. Essa guerra não é pelo passado. Ela é travada no e pelo presente. Esses indivíduos que estão disputando o espaço da escola, inclusive agindo contra a lei, querem ampliar seu espaço de controle no presente. Eles entendem que — como sujeitos históricos que somos — agimos no presente, influenciados pelas distintas leituras que realizamos sobre o passado. Ou seja, nossa forma de se portar e viver no presente mantém íntima relação com a maneira como interpretamos nossas experiências passadas, que podem, por conseguinte, estabelecer e direcionar projetos de futuros. A guerra, portanto, é no presente.

Essa guerra incide, pois, em táticas de silenciamentos. Querem, assim, forjar as lentes pelas quais nossas crianças e jovens devem perceber e apreender o mundo. Desejam impor as lentes ofuscadas que enxergam a vida, o ensino e a aprendizagem pela miopia da dualidade. À medida que pretendem determinar o que narrar, tentam silenciar um conjunto de relatos, de memórias e de narrativas; em síntese, de histórias. Relatar, lembrar e narrar são atos políticos que potencializam a escola como lugar permanente de disputas. Disputas que se constituem em ferramentas políticas, pois a memória tem o poder de “presentificar” ou não certas representações do passado, e torná-lo presente pode significar a constituição de um campo de força para os enfrentamentos nas relações de poder do cotidiano.

Se, atualmente, presenciamos um crescimento dos ataques desferidos à educação, às escolas, aos professores e às professoras, é também porque nossas ações têm provocado as relações de poder. Nossos questionamentos em sala de aula, nossas reflexões têm instigado nossos alunos e alunas a não aceitarem discursos simplistas ou revestidos por estratégias de dominação contra mulheres, negros, gays e tantos outros segmentos sociais. Os ataques à educação também sinalizam que a escola tem contribuído, como força política, na luta em defesa dos princípios por uma sociedade mais justa e democrática. Os jovens das escolas públicas de São Paulo desafiaram o poder tirano do governo de Geraldo Alkmin no movimento de resistência contra o fechamento desses espaços.

Esse dossiê, ao mesmo tempo em que traz as insígnias dessa guerra, também (e paradoxalmente), constitui-se em ferramenta de luta e de enfrentamentos. Apresenta um conjunto de artigos que abordam experiências de pesquisas acerca do cotidiano escolar. Assim, presentifica, por meio da escrita de seus autores e autoras, uma forma de combate às forças obscuras que tentam nos amordaçar. Em cada reflexão presente nos artigos, há também um grito de resistência porque nós, intelectuais, professores e professoras também lutamos nessa guerra para que nossas interpretações sobre nossos objetos de estudo sejam ouvidas, lidas, circuladas, debatidas e criticadas. Mas fazemos isso por meio de uma operação intelectual fundamentada em princípios éticos e democráticos. Não somos criminosos agindo fora da lei. Nosso debate é travado no campo de argumento. Oferecemos nossas reflexões e apresentamos outros ângulos de percepção a partir da problematização de nossos objetos de pesquisa.

O presente dossiê é composto por oito artigos, ou, se preferirmos, por “oito batalhas” nesse campo de guerra. Neles, são analisadas diversas questões que apresentam desafios e mostram possibilidades de interpretação e formas de atuação. Abre o dossiê o artigo “Juventude, Cotidiano e Escola: vivências no meio rural”, em que sua autora Catarina Malheiros da Silva faz uma reflexão sobre os sentidos atribuídos à escola a partir da participação em eventos extraescolares no meio rural, mostrando a polissemia de significados e formas de ver e viver a escola. No artigo seguinte — “Saberes e práticas da formação docente: educação inclusiva e produção de materiais didáticos acessíveis” — os autores Airton dos Reis Pereira e Mirian Rosa Pereira mostram algumas análises acerca da chamada educação inclusiva, da importância em pensar ações que possibilitem a construção de materiais didáticos diferenciados, de forma a promover outras maneiras de acesso ao conhecimento escolar.

As discussões continuam no artigo “Dualidade de gênero e educação física na escola do campo: algumas considerações” de Welson Barbosa Santos, Margareth Pereira Arbués, Thiago F. Sant’Anna e Argimiro Camargo. Nesse trabalho, os autores apresentam importantes reflexões sobre as relações de gênero e sexualidade no cotidiano do universo escolar, na Região do Vale do Araguaia e Vale do Rio Vermelho, no estado de Goiás. No artigo seguinte — “Ensino de ciências no cotidiano escolar: vivências a partir do estágio curricular supervisionado” — os autores Jaílson Bonatti e Tainara Strege apresentam uma análise sobre o processo formativo dos profissionais docentes e mostram como a execução do estágio curricular desempenha uma importante contribuição no processo inicial de formação docente. Em seguida, temos o artigo “Formação inicial de professores no grande ABC: instituições, vagas e curso” da professora Celia Maria Haas. Nesse, a autora faz uma análise sobre a configuração dos cursos de licenciatura das instituições de educação superior das sete cidades do Consórcio Intermunicipal Grande ABC — São Paulo, e mostra importantes informações sobre a formatação dos respectivos cursos em termos de duração, proposta curricular e período de oferta. No artigo “Mediação de conflitos na escola: impasses e possibilidades”, os autores Izabel Cristina Barbelli, Bernardo Barbieri Ferreira, Gabriel Siqueira Terra e Lara Fileto Nogueira mostram, a partir de uma revisão bibliográfica, os desafios e possibilidades no que tange à construção de estratégias que permitam mediar conflitos em escolas.

Em “Educação social e discursos de vulnerabilidade ao terrorismo na mídia brasileira”, Margarethe Born Steinberger-Elias analisa o papel dos meios de comunicação quando trata-se do recrutamento de jovens pela organização Estado Islâmico e como estudos sobre comportamentos em situações extremas propiciam uma avaliação do papel da Educação Social na redução da vulnerabilidade.

Fecha o dossiê o artigo “O projeto político do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) para a formação inicial de professores” do professor Fernando Henrique Protetti. Nesse texto, o autor apresenta reflexões sobre a tecnologia como instrumento de trabalho para o ensino na modalidade de educação a distância por meio do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), focando no período da formação inicial de professores.

Ainda compõem o presente número quatro artigos que, igualmente, apresentam importantes reflexões sobre esse campo de batalha em que se tornou a educação.

“A utilização de maquetes no ensino fundamental: possibilidades e experiências metodológicas”, de Natália Lampert Batista, Tascieli Feltrin, Márcia Silveira Cassol e Elsbeth Léia Spode Becker, busca apresentar as maquetes como ferramenta pedagógica para desenvolver e aprimorar conhecimentos dos estudantes.

Maikely Teixeira Colombini, em “De Telêmaco a Eugene Rastignac: a negação de um sujeito honrado”, mostra como a literatura retrata a realidade em suas obras e como se dá a identificação do leitor com o texto.

“Declínio dos valores éticos: o impacto negativo da publicidade indevida dirigida ao público infantil”, de Bruna Alves de Santana Gonçalves, Clarice Avanzi, Fábio Barros, Leandro Innocente, Ramon Silva e Ana Maria Dietrich, aborda, sobre o prisma da ética e da sociedade consumista, quais são os efeitos da publicidade voltada ao público infantil e que ações podem ser implementadas para mitigar seus efeitos.

Por fim, “O uso do ensino de Filosofia na educação básica no Brasil como meio de legitimação dos poderes instituídos”, de Odair de Abreu Lima, trata sobre o modo como o ensino de Filosofia foi utilizado por governos no Brasil, desde o período colonial.

Finalizam a edição a entrevista com o professor Pablo Porfírio, do Colégio de Aplicação da UFPE, e as resenhas “Gritam os muros: pichações e ditadura civil-militar no Brasil” e “Os jovens e a história: Brasil e América do Sul”, escritas por Marcília Gama e Adriana Silva Teles Boudoux, respectivamente.