O Quarto Poder

Renata Amaral

 

Os meios de comunicação de massa tornaram a televisão amplamente difundida e comentada na atualidade. O rádio, apesar de alcançar as camadas mais diversificadas da sociedade, não possui o recurso imagético inseparável à televisão. As imagens despertam sentimentos, emoções e, acima de tudo, aproximam o telespectador daquilo que ele pode ver e ouvir, mas não presenciar. Essa proximidade cria uma identificação, um laço afetivo com quem traz esse mundo de imagens e sensações até ele. Por isso mesmo a televisão exerce um poder muito forte sobre a opinião pública, fazendo com que a exposição repetida dos fatos comova ou transforme pessoas em heróis ou vilões, como exemplo mais recente o caso Isabela Nardoni.

A imprensa tem como objetivo tornar público os fatos que julgam ser do interesse da população, mas são notadamente carregados de ideologias diversas. Ironicamente, a imprensa que é considerada “defensora da democracia nacional”, também é tida, por alguns autores, como “quarto poder”, participando ativamente do governo com o executivo, legislativo e judiciário. Decisões do governo inevitavelmente precisariam passar pelo crivo da mídia antes de serem aprovadas ou não pelos eleitores.

Essa espécie de “poder paralelo” atribuído à imprensa torna-se essencial na construção daquilo que compreendemos como verdade. O que é veiculado na mídia raramente é criticado antes de ser absorvido pelo grande público, e, atualmente, esse é um recurso amplamente usado como peça-chave para qualquer projeto de chegada ao poder. Qualquer político que eventualmente quiser ser eleito ou permanecer no poder precisa ter a mídia como aliada. Como exemplo clássico, podemos citar o debate entre Collor e Lula nas eleições de 1989. Editado e exibido pelo Jornal Nacional, esse debate foi tido como fator decisivo para a eleição de Collor. A TV Globo foi acusada de ter favorecido Collor tanto na seleção dos momentos como no tempo dado a cada candidato, já que o candidato do PRN teve um minuto e meio a mais do que Lula. A emissora negou que tenha favorecido um dos oponentes, apenas que usaram o mesmo critério de edição de uma partida de futebol, na qual são selecionados os melhores momentos de cada time. Segundo eles, o objetivo era que ficasse claro que Collor tinha sido o vencedor do debate.

Anos mais tarde, em 1992, a mídia teve papel igualmente fundamental no primeiro impeachment da história política brasileira. Milhares de pessoas de caras pintadas puderam ser vistas no mundo inteiro pedindo “Fora, Collor!” Em transmissão ao vivo, 441 deputados votaram a favor da abertura do processo de impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1961.

Mesmo assim, escândalos políticos como os que temos visto periodicamente na televisão são rapidamente esquecidos. Os mesmos 15 minutos de fama de um participante do Big Brother são compartilhados com escândalos como valerioduto, sanguessugas, cartão coorporativo e tantos outros descobertos atualmente. Tanto a CPI dos Correios quanto o recente afastamento do prefeito de Juiz de Fora, Alberto Bejani, por corrupção e enriquecimento ilícito não serão permanentes na memória dos brasileiros. A prova disso foi a eleição de Collor para senador por Alagoas em 2006, apesar de ter tido seus direitos políticos cassados por oito anos.

Não acredito que a mídia assegure os direitos dos cidadãos por simplesmente querer assegurar, é mais um jogo de interesses do que responsabilidade social. Os jornalistas, assim como eu um dia serei, devem ser honestos e éticos, mas quem manda, infelizmente, é o editor. E por trás do editor, tem sempre quem banque o jornal ou o veículo que a pessoa trabalha.  

Poderia até escrever coisas bonitas relacionando a responsabilidade social com a ética jornalística, mas eu infelizmente não acredito. Por isto pergunto: esse “quarto poder” é vilão ou herói? Será que a mídia pode realmente nos salvaguardar de eleger e manter no poder políticos corruptos? Ou, na realidade, a responsabilidade passa primeiramente por nós, cidadãos?